Resenha de livro

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004




Zygmunt Bauman é sociólogo, professor emérito de sociologia na Universidade de Leeds e Varsóvia tem uma extensa produção intelectual, e outros volumes que envolvem a temática da pós-modernidade.
O livro Amor líquido versa sobre a fragilidade dos vínculos humanos e o conseqüente sentimento de insegurança causado por tal fragilidade, aponta ainda os desejos conflitantes de estreitar e ao mesmo tempo afrouxar tais vínculos.
A obra tem como tema central o relacionamento humano e define os homens e mulheres contemporâneos como personagens centrais, estes de acordo com o autor, estão inseridos no sentimento paradoxal de querem se relacionarem, no entanto temem a manutenção de um vínculo permanente.
O autor explora  a mudança de postura diante das interações humanas, nas quais substituíram relacionamentos por conexões, qualidade por quantidade.
O livro divide-se em quatro capítulos, cada qual aponta um aspecto desta nova forma de relacionar-se.
O capítulo um trata entre outros, da relação entre amor e morte, do relacionamento amoroso  em uma cultura consumista e também da relação entre afinidade e parentesco.
Já no capitulo dois amplia a questão, tratando das novas modalidades de homem pós- moderno em relação ao sexo; opondo o que é feito e sentido na atualidade, ao que estava em voga em outros momentos históricos. Este capítulo trata também da maternidade e a paternidade à luz da perspectiva do consumo e aponta as novas ferramentas de sociabilidade e o serviço que estas prestam à nova forma de relacionar-se na modernidade líquida.
No capítulo três, se amplia ainda mais a questão do amor, saindo do campo romântico e sexual, em direção a questão social, fala-se da dificuldade de se amar o próximo; neste capítulo, é abordada a questão do amor comunitário e a estrutura das cidades, relacionando arquitetura a questões socioeconômicas.
No capítulo quatro, o autor dedica-se a analisar a então destruição do convívio, tratando da insegurança, veiculada ao total desligamento de relações de solidariedade entre grupos étnicos distintos, da exclusão da humanidade do outro e do estreitamento de fronteiras globais.
No presente trabalho,  se fará a tentativa de resumir cada um dos capítulos sem contudo perder de vista a conexão entre eles.

Capítulo 1
Neste capítulo o autor utiliza várias referências de textos anteriores à pós- modernidade, mesclando também com a leitura de expressões pós- modernas, como programas de televisão e revistas. Desta forma, contrapõe a visão de amor romântico no passado e no presente. Salienta seus desdobramentos nas relações familiares, alinhado às questões advindas da cultura do consumo presente no mundo pós- moderno; chamado pelo autor de modernidade líquida.

Na obra, o autor não apenas aponta a fragilidade amorosa, ele também constrói as justificativas, partindo de conteúdos do cenário atual que propiciam tal comportamento. Aqui destacaremos a questão amor x morte, a cultura consumista e a relação entre afinidade e parentesco.
A fim de situar bem o temor dos homens e mulheres pós- modernos diante do amor, Bauman aproxima o tema amor, do tema morte, extraindo dois pontos similares entre eles. Um ponto seria a inevitabilidade e a imprevisibilidade, a soma de ambos os pontos os transfiguram em temas atemorizantes. Assim, compreende-se o temor que o indivíduo pertencente à modernidade líquida sente diante do amor, ou seja do inevitável e do imprevisível. O amor, além disso, traz a necessidade de doação, de estar disponível, e de assumir responsabilidade; o que vai exigir renúncia e sacrifício, mas tais instâncias não são compatíveis com a cultura pós- moderna.
A cultura consumista que se instaurou na era pós- moderna, dá preferência ao prazer intenso e passageiro, e à facilidade de se experimentar o mundo consumindo-o e prontamente; sem sacrifícios ou esforços. Neste panorama, não há lugar para vivenciar um amor que requer doação e abdicar-se dos prazeres momentâneos. Assim o mesmo impulso de consumir uma mercadoria é transferido para as relações amorosas, tendo essas uma tônica sexual na qual permite estar sempre aberto a novas experiências sexuais com diferentes pessoas.
Encontra-se nesta lógica do amor como consumo, uma semelhança do relacionamento interpessoal com o investimento econômico, em ambos o lucro é objetivo maior. Desta maneira, o sujeito relaciona-se com vistas a atender demandas de segurança, proximidade, ajuda, companhia, consolo e apoio; sem no entanto gerar altos investimentos, os relacionamentos estão sujeitos a análise de custo-benefício. Logo, busca-se investir pouco e obter muito.
Para a infelicidade dos homens e mulheres, pós- modernos, no entanto, no que tange a relacionamentos, o investimento não pode ser mensurado com garantias de que será feito um bom negócio, isto gera insegurança e ansiedade. A solução encontrada para driblar essas incertezas e ao mesmo tempo garantir o afastamento da solidão, reside na decisão de alguns casais pós- modernos de simplesmente viver juntos, sendo livres do compromisso de um casamento oficial. Outros distanciados dos prejuízos possivelmente acarretados por um casamento integral optam por um casamento em tempo parcial, vivendo juntos quando desejarem e separando-se quando for conveniente, com contas bancárias e vidas separadas. De acordo com autor, tais configurações são alternativas de saciar o desejo por liberdade e ao mesmo tempo, de ativar a sensação de pertencimento.
Neste ainda, o autor também aborda as categorias afinidade e parentesco. Ao passo que parentesco seria um laço irredutível e imposto, a afinidade, seria eletiva, dando margem à possibilidade de escolha. Esta categoria permite ao sujeito que antes acreditava ter afinidade com outrem, mudar de idéia e deixar tudo de lado. Desta forma, a afinidade afasta-se de seu objetivo de ser como o parentesco, e torna-se cada vez menos comum na sociedade pós-moderna. Abrindo mão da fixidez, as relações se estabelecem com o que se tem no momento atual, sem traçar aquilo que ambos desejam ter, não há tentativas de se entregar. A militância segue o mesmo caminho da afinidade, tornando-se cada vez menos fixa e mais líquida. Não há real tentativa de se manter um relacionamento fixo com um programa coletivo, em seu lugar está sempre um programa que satisfaça a decisão individual, que sempre permita ao indivíduo voltar atrás.   
Capítulo 2
No capítulo dois, o autor ainda trata da questão do amor eros, ao falar sobre o encontro dos sexos, e o homo sexualis, mas vai gradualmente englobando cada vez mais questões políticas e sociais ao tema amor líquido.
De acordo com Bauman, a cultura nasceu do encontro entre os sexos. No entanto a ars erotica perdeu espaço para uma scientia sexualis, desta forma o sexo tornou-se algo racional e a reprodução tornou-se responsabilidade da ciência. Isto destitui o homo sexualis do eros, e coloca o sexo como algo auto-sustentável, não há mais sexo para reprodução, já que esta está a cargo da medicina, então o sexo se torna auto-suficiente, se justificando para pura gratificação, por puro prazer; assim o sexo se volatilizou, sendo assim uma relação sexual, tornou-se cada vez mais intensa e transitória.
Na modernidade líquida, com a reprodução a cargo da medicina, os filhos podem ser planejados de acordo com as demandas de desejo de consumo emocional dos pais. Filhos envolvem um investimento financeiro e emocional, sem garantias de lucro, configurando-se como investimentos de alto risco. Apesar disso muitos investem tendo em vista o possível retorno emocional.
Embora vise o lucro, a cultura de consumo, não busca o acumulo bens, mas sim o uso e descarte destes, assim pode-se rapidamente adquirir outros. O movimento gera leveza , velocidade e instabilidade tão característicos desta era. No livro dá-se o exemplo do celular, que é tido como acessório indispensável na modernidade líquida, sendo por isso um dos itens eletrônicos mais desejados, utilizados e descartados. Com o celular é possível estar sempre conectado, sem estar próximo. Com este aparelho, pode-se estar dentro, sem estar trancado; ele possibilita um contato, sem compromisso, pois é fácil apagar um contato que tenha eventualmente se tornado indesejado.
As novas formas de se relacionar, propiciadas por novas ferramentas acabaram, de acordo com o autor, reduzindo a capacidade de novos sujeitos de se relacionarem da forma tradicional. Não apenas o telemóvel, mas as redes sociais presenteiam o homem pós- moderno com a possibilidade de fazer múltiplas comunicações instantâneas e sem vínculos profundos. O sentimento de insegurança e incerteza aumenta a dificuldade de amar o próximo, pois o outro é visto como um possível agressor, alguém que pode tirar a chance de viver uma vida plena. O autor relaciona o crescente número de diagnósticos de pânico e depressão a essa constante insegurança afetiva.
Na sociedade do consumo, não há muito espaço para a "economia moral" - isto é o compartilhamento de bens e serviços, cooperação entre familiares, amigos e vizinhos. Contudo esta subsiste como postura anárquica, objetivando o alívio das pressões realizadas pelo competitivo mercado; é uma afronta ao ideal do homo economicus, que faz com que a economia continue em movimento; e ao ideal de homo consumens que faz da compra sua terapia, buscando novas ofertas de compras bem sucedidas como solução.
Capítulo 3
 No terceiro capítulo, Bauman aproxima o amor-próprio do amor ao próximo e aprofunda as questões relacionadas com a dificuldade de amar a outrem. De acordo com o sociólogo, o amor próprio resulta da percepção de ser amado. Ser ouvido, ter a opinião levada em conta fortalece a sensação de que se é amado. O outro, então nos classifica como dignos de amor, e esta classificação quando percebida, alimenta o amor próprio. Neste contexto, há uma identificação com quem nos ama, e o reconhecimento da necessidade de retribuir esse amor. O autor afirma que  a máxima “ama ao próximo, como a ti mesmo" funda a moralidade, pois o instinto de preservação tem o acréscimo da instância moral. Na construção da percepção do eu e do outro, se delineia uma relação humana, diferente de uma relação puramente animal, que propicia a sobrevivência.
Embora o preceito de amar o próximo seja fundamental para a humanidade, o homem pós- moderno tem extrema dificuldade em amar outro indivíduo, por diversos motivos. Um deles é o fato do interesse próprio e da busca de felicidade para si, serem colocados acima do ideal de coletividade.  Seguindo esta razão, não se pode amar quem é diferente de si, o amor passa então a ser destinado, apenas aos que se assemelham; essa lógica favorece a xenofobia.
A dificuldade de amar o próximo tem, de acordo com Bauman, raízes no medo e na incerteza em relação ao outro que acarretam a negação do amor e da dignidade de ser amado. O amor próprio não tem espaço, tão pouco o amor ao próximo, este último não é natural nem fundamental em nossa sociedade.
 A falta de amor e o medo apontam para uma ótica segregacionista, esta se reflete na arquitetura das cidades. A preocupação individual impulsionou a interdição de espaços, ao invés de se construir pontes, e facilitar a passagem de um ponto a outro da cidade, se constrói formas de afastar os ociosos, e de preservar a segurança das elites supra territoriais. As pessoas são postas a conviver com seus semelhantes, isso diminui sua capacidade de negociar outros significados. Ao mesmo tempo em que a cidade oferece uma variedade que amedronta, ela encarcera seus habitantes em nichos homogeneizados.

Capítulo 4
O último capítulo do livro aborda a xenofobia, esta marca o total desligamento de laços de solidariedade.
A xenofobia, do ponto de vista de Bauman, deriva da crescente preocupação com a segurança da sociedade moderna. O autor aborda, neste contexto o problema da imigração nos Estados Unidos e os desdobramentos do dia 11 de setembro em relação ao sentimento diante do estrangeiro.  Neste viés da xenofobia, também é explorada a questão dos refugiados.
Apesar dos Estados Unidos terem se constituído a partir da imigração e ser considerado a  terra das oportunidades e da liberdade, a sociedade norte- americana, também foi afetada pelo sentimento de insegurança, que como em demais nações, foi direcionado ao “diferente”, e o estrangeiro é na verdade considerado  como sendo perigoso e criminoso. Os eventos do dia 11 de setembro de 2001 consolidaram essa lógica e permitiram que mesmo em uma terra que se formou a partir de sucessivas imigrações, fosse possível, agora considerar a imigração como uma ameaça.
O imigrante não é bem vindo, assim como o refugiado. Bauman vai nomear esses indivíduos que estão deslocados como “lixo humano”. Estes resultam da seleção, descarte e exclusão de pessoas que não se adaptam à ordem social e progresso econômico.  De acordo com o autor, há um acúmulo de pessoas excluídas do processo socioeconômico da sociedade do consumo, e faltam, o que ele chama de “aterro sanitário” para esse excedente. Esse aterro sanitário, seria uma alusão a falta de lugar para essas pessoas.
Existem, além das pessoas consideradas como lixo humano, os indivíduos “Sem estado”, que foram produzidos pelo Estado moderno.  Esse indivíduo seria o homo sacer, seria este matável, mas não sacrificável, é o homem que se tornou um número, ele pode ser explorado e substituído com facilidade. O autor marca o progresso do “Estado de direito” para o “Estado-nação” que constrói a tríade: território, Estado e nação. Os sujeitos que não são abraçados por um Estado, estão deslocados do território são os refugiados, estes são situados em um não lugar.
O refugiado se vê transferido para um campo de refugiado, local de instalação transitória, mas com o bloqueio da saída, torna-se permanente. Assim a situação do refugiado contrasta com a da elite global, os primeiros tem essa localização permanentemente temporário, enquanto os segundos ocupam um espaço, mas não pertencem a ele.
A fim de se adequar a nova nação o refugiado precisa experimentar uma nudez social, precisa se despir de sua identidade anterior para então ser colocado na transitoriedade, ao passo que a elite global precisa se colocar diante de uma comunidade global.
O autor finaliza o texto alertando para a gravidade da situação atual, e aponta a possibilidade de mudança., haja vista a história ainda não teria sido terminada. Ele sinaliza a necessidade de se promover um diálogo ao outro, possibilitando a estruturação de uma comunidade humana.
Considerações finais
O livro, amor líquido de Zygmunt Bauman é um livro bastante denso, que conversa com a cultura popular, por sua atualidade e correlação direta com a realidade, ao mesmo tempo em que mantém uma densidade, proveniente de seu caráter hipertextual.
O livro aborda uma série de temas que afligem o cidadão comum, permite uma reflexão acerca da vida cotidiana do homem e da mulher pós modernos,  mas apresenta tantos atravessamento e conversas com outras obras, que requer um certo conhecimento literário. A obra surpreende por citar não Platão, mas também uma série americana, ou revista popular.
A leitura do livro em si, nos situa na realidade pós- moderna, pois a velocidade, a fluidez, a inconstância estão presentes no livro em si. Com suas elucubrações, recortes e associações diversas, o livro que a primeira vista falaria de amor, não se atém a isso; acaba tratando de diversas instâncias na qual o amor pode se estabelecer.
Como se não bastasse apresentar uma variabilidade de temas dentro de um tema, a obra também não se situa em um lugar, não se volta apenas a realidade de uma região como a Europa, ou de um país como os Estados Unidos, acaba fazendo um apanhado do que ocorre neste mundo global, com fronteiras ambiguamente delineadas.
A obra é global, na perspectiva do mundo ocidental, às vezes choca com o uso de um vocabulário, como “lixo humano”, que revela o quão profunda é a desumanização de alguns seres humanos, na modernidade líquida.      
O autor desnuda, faz pensar e provoca o leitor com uma linguagem acessível, mas demanda certo conhecimento prévio global, conhecimento literário, de mídias, etc. Não é um livro a ser lido na transitoriedade, o ideal é que se possa ler e ter uma pausa para reflexão do conteúdo.
Acredito que a obra é bastante pertinente e tenta esclarecer a nossa nova realidade de forma bem eficiente.




Comentários